Nesta página, toda semana, um poema que me cala fundo!   

PEQUENA ELEGIA   (Nelson Archer)

Gatos não morrem de verdade:
eles se reintegram
no ronronar da eternidade.
Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de algum de rato
Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.
Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.
Gatos não morrem: mais preciso
– se somem – é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso
e dormirão lá, depois do ónus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos

 
RUMO ABERTO    (Lou Viana)

Do naufrágio
nas costas da África
guardei em mim

colar de contas
anel de prata

pulseira de marfim

SONETO    (Luiz de Camões)
 

 

Busque Amor novas artes, novo engenho
Pera matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê

  
CARESTIA                     (Astrid Cabral)  

Amor custa bem caro.
Mesmo assim depenamos bolsos
e bolsas de moedas raras.
Por ele pagamos, em prestações
nem sempre suaves, quanto
de entrada supúnhamos
de todo não poder:
o alto preço dos sustos,
a conta escorchante
das noites em claro,
os juros extorsivos
do medo de perdê-lo,
a tristeza do saldo zero.
Queixamo-nos de carestia
se de amor-próprio ainda
nos sobra algum trocado,
mas que fazer quando só
amor é o lucro que buscamos?

O ANO INTEIRO      (Helena Ortiz)
              
aos domingos te sinto mais
sei que estás
sei que me chamas para a rua
que me levas em tuas procuras
apenas para acompanhar-te
e garimparmos os gestos
e as ausências dos vivos

às segundas não me queres
sabes que a luta me toma
te comportas na fotografia

às terças estou conformada
às quartas me deprimo
às quintas me acendo

às sextas já sou domingo


GERAÇÃO XEROX  ou    (Virginia Gualberto)

IDENTIDADE

Sou filha de uma máquina xerox
com um orelhão.
Minha pele é aço inox
minha linguagem é basic.

Não bebo nem fumo beise
para não atrasar a produção
                               produção
                               produção
                               produção
                               produção
                               produção

  

 DANDARA   (Iracema Macedo)

  

Eu só acreditava em Drummond:
o amor chega tarde
Não conhecia o amor que fulgura sem aviso
esse que se sabe proibido
o amor que já se sabe perdido desde o início
Eu não acreditava no impossível
vinha tão sóbria, tão cheia de medidas
não conhecia o esplendor da queda
nem a violência dos abismos

 

Guardar       (Antônio Cícero)


Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
 
 
RECEITA PARA LAVAR PALAVRA SUJA    (Viviane Mosé)

Mergulhar a palavra suja em água sanitária.
depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia.
Algumas palavras quando alvejadas ao sol
adquirem consistência de certeza. Por exemplo a palavra vida.
Existem outras, e a palavra amor é uma delas,
que são muito encardidas pelo uso, o que recomenda esfregar e bater insistentemente na pedra, depois enxaguar em água corrente.
São poucas as que resistem a esses cuidados, mas existem aquelas.
Dizem que limão e sal tira sujeira difícil, mas nada.
Toda tentativa de lavar a piedade foi sempre em vão.
Agora nunca vi palavra tão suja como perda.
Perda e morte na medida em que são alvejadas
soltam um líquido corrosivo, que atende pelo nome de amargura,que é capaz de esvaziar o vigor da língua.
O aconselhado nesse caso é mantê-las sempre de molho
em um amaciante de boa qualidade. Agora, se o que você quer é somente aliviar as palavras do uso diário, pode usar simplesmente sabão em pó e máquina de lavar.
O perigo neste caso é misturar palavras que mancham
no contato umas com as outras.
Culpa, por exemplo, a culpa mancha tudo que encontra e deve ser sempre alvejada sozinha.
Outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo, já que desejo, sendo uma palavra intensa, quase agressiva, pode, o que não é inevitável, esgarçar a força delicada da palavra amizade.
Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.
Outro cuidado importante é não lavar demais as palavras
sob o risco de perderem o sentido.
A sujeirinha cotidiana, quando não é excessiva,
produz uma oleosidade que dá vigor aos sons.
Muito importante na arte de lavar palavras
é saber reconhecer uma palavra limpa.
Conviva com a palavra durante alguns dias.
Deixe que se misture em seus gestos, que passeie
pela expressão dos seus sentidos. À noite, permita que se deite, não a seu lado mas sobre seu corpo.
Enquanto você dorme, a palavra, plantada em sua carne,
prolifera em toda sua possibilidade.
Se puder suportar essa convivência até não mais
perceber a presença dela, então você tem uma palavra limpa.
Uma palavra LIMPA é uma palavra possível.

 

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3 Responses to “Poemas que amo”


  1. 1 Rose
    abril 26, 2009 às 4:05 am

    Oi Vivianne Mose, que poesia bonita. Agora passarei a ver as palavras de modo diferente. Obrigada por me mostrar este fato

  2. 2 Luiz Otávio Oliani
    abril 30, 2009 às 6:27 pm

    Belíssimos poemas. Luiz Otávio Oliani.

  3. junho 9, 2010 às 1:04 am

    Adorei o “receita pra lavar a palavra suja” e o soneto do Camões também está na lista dos meus preferidos.


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