07
maio
09

Inspiração

 O medo maior de um artista é a falta de inspiração. A tela vazia ou uma página em branco são abismos constantes e a verdade é  que o artista está sempre em queda, ou na melhor das hipóteses, à beira do abismo, abismado.

Oscar Wilde, mesmo depois de preso e escorraçado pela sociedade, continuou a escrever e no pior momento de sua vida criou um de seus mais belos poemas, A Balada do Cárcere de Reading

Truman Capote, depois de escrever sua obra-prima, A Sangue Frio,  nunca mais conseguiu terminar um romance. Morreu de cirrose.

Numa sexta-feira há 13 anos, estava eu em casa, sem perspectivas,  quando me bateu uma angústia imensa, uma vontade absurda de escrever um poema. Mas eu não sabia o que escrever, apenas sabia que queria escrever um poema, e  então…


SEXTA-FEIRA     (Victor Colonna)

Quero fazer um poema
Tenho as mãos livres
E o tempo todo.

Quero fazer um poema
Pois hoje é sexta-feira
Mas o traço é torto
Algo não está certo.

Preciso fazer um poema
Mas a sílaba escorrega
Como a gota de mercúrio
                                 do termômetro quebrado
E me sinto preso
Entre a ânsia da palavra
A letra morta
O ruído leve
E o silêncio pesado.

Quero fazer um poema
Nem que seja pra quebrar o gelo
Pra me sentir honesto
Pra desviar a atenção
E aplacar a libido.

Preciso fazer um poema.
Quero falar do espanto
Quando vejo a ruga fina
Que surpreende meu semblante.

Quero falar de alegria:
Da música do rádio AM do porteiro
E da vizinha simpática
Que encontrei no elevador hoje à tarde
E que encheu meu coração de ternura.

Preciso falar da dor,
Do amigo que jaz semi-morto
                                     num leito de hospital
Da falta de emprego
Da fome do mundo
Do início das eras
Da pedra fundamental.

Talvez, na realidade, eu não queira
                                            nem precise fazer um poema.

Talvez eu só queira
Abraçar a vizinha
Cantar a música
Desentortar a sílaba
Aprender com as rugas
Encontrar um emprego
Acabar com a fome
E achar a pedra.

Talvez eu só precise
Encontrar o amigo
Cantar a vizinha
Acabar com o emprego
Aprender com a fome
Desentortar as rugas
Abraçar a sílaba
E achar a música.

Mas, talvez, sobretudo, eu necessite
                                                 encontrar um meio-termo
Entre o que eu preciso
E o que eu quero.

Misturar
Alegrias
Espantos
E dores
Na medida certa.

Mas eu sei que isso é impossível.
Então eu faço um poema.

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3 Responses to “Inspiração”


  1. maio 7, 2009 às 10:49 pm

    Uaaaaau, lindo hein!
    “Desentortar as rugas” foi surreal. Parabéns, poeta!
    Será que vou te ver na Fosfobox hoje?
    Beijinhos.

  2. 2 Julia
    maio 8, 2009 às 1:12 am

    Impressionantemente maravilhoso!
    Que magnifíco poeta você é, Victor Colonna.

  3. maio 11, 2009 às 6:13 pm

    Tem um verso seu, “o reflexo do branco celulose”, que define bem essa angústia frente ao vazio – porque o artista não vê o vazio, ele vê todas as coisas que podem ocupar aquele espaço – como o escultor olha para a pedra e vê as imagens que ali se abrigam.

    O silêncio, o branco, o vazio… todas as frases que se podem formar com as palavras que passam chispando pela minha cabeça… A vida é um matéria-prima e tanto!!!


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