16
abr
09

Paraty

De alguns anos para cá Paraty é  palco da maior feira literária do Brasil. Durante 4 dias, escritores e público se encontram e  harmonizam  em eventos que acontecem em todos os cantos da bela cidadezinha, que,  se por um lado, parece parada no tempo,  por outro , fervilha  culturalmente, permitindo que  artistas  e público se conheçam mais profundamente.

Paraty entrou em minha vida quando eu tinha 17 anos, apesar de  eu só ter pisado na suas charmosas e desiguais ruas  20 anos depois.

Naquela época,  eu  tinha uma vizinha de porta, que junto com o marido, levava gringos para excursões , passeios ao Cristo, Pão de Açúcar,  city tours.  Numa sexta-feira na qual seu marido adoeceu,  ela bateu lé em casa para perguntar se , no dia seguinte  bem cedo, eu poderia levar  um grupo de argentinos numa excursão à uma praia em CaboFrio. Como naquela época eu fazia de quase um tudo para esticar minhas mirradas economias, topei sem pestanejar.

Acontece que era sexta-feira e eu com  a toda a responsabilidade dos meus 17 anos, resolvi sair com uns amigos para beber “dois chopinhos”, apenas!

Só que a hora foi passando, os chopps se multiplicando e quando vi já eram quase 5 da matina! Cheguei em casa disposto a virar a noite, mas obviamente, após deitar na cama, caí num sono profundo.

Uma hora depois, sacudido pelo despertador, só tive tempo de fazer um café, tomar um banho rápido e  descer para encontrar o motorista da kombi.

Não eram nem 7 da manhã, a kombi lotada de argentinos, cuja alegria  constrastava com os meus olhos inchados e a minha cara amassada. 

Não bastasse isso, os hermanos começaram a me bombardear com perguntas:

Quanto mede o Cristo Redentor? Qual a altura do Pão de Açúcar?  Qual a extensão da Praia de Copacabana? Quantos quilômetros tem a ponte Rio-Niterói?

 A viagem mal tinha começado e eu já não aguentava mais, minha cabeça martelava e eu ia inventando as respostas com a minha cara-de pau adolescente. Até que veio a pergunta fatal: E Paraty? Onde está Paraty?

Virei-me para a moça que havia feito a pergunta e, sério, respondi no meu melhor portunhol:

Jo non sei, pois Paraty, no es para mi, es para ti!

A kombi explodiu em gargalhadas e daí pra frente o clima mudou.

Dizer que as coisas deram certo aquele dia  seria mentir: pegamos a estrada errada e chegamos com mais de 2 horas de atraso na praia de Cabo Frio. No restaurante, o prato que pedi atrasou e chegou quase uma hora depois que todos haviam terminado de comer, mas não sei, o dia parecia leve, mágico, e de alguma forma, levávamos com bom humor todos os contratempos!

No fim da tarde, já na estrada e volta, uma moça do grupo deitou a cabeça no meu ombro enquanto  eu via o pôr-do-sol no fim da estrada e  já sentia saudade daquele estranho dia  em que a ordem foi subvertida e a felicidade apareceu de surpresa!

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7 Responses to “Paraty”


  1. 1 Helena
    abril 16, 2009 às 11:31 am

    Oi querido,

    também adoro quando abandonas um pouco a tua poesia irada e escreves com a ternura de quem deita a cabeça num ombro. tua poesia já é enorme, mas a prosa vem crescendo dia a dia. e o prazer é para todos.

  2. abril 16, 2009 às 1:37 pm

    Que legal!

    Gotas de memórias desse mestre das palavras. To adorando o blog !!!!

  3. 4 Julia
    abril 16, 2009 às 6:44 pm

    Adorei! Que boas lembranças vc tem de sua infância e adolescência, hein? Seu blog é bárbaro. Boa poesia, bom texto, bom humor, excelentes e divertidas histórias… Virei fã. Até a próxima.

  4. 5 sandra cirino
    abril 17, 2009 às 12:30 am

    Meu querido amigo,

    vc cada dia melhor :))
    se já te amava poeta,pessoa , ser humano raro : agora , como cronista que és
    eu me encanto com sua prosa e suas memórias sempre
    atentas aos detalhes , vc é bom no que faz e faz bem
    feito … fique atento ! dia desses ao abrir o blog vou
    dar de cara com uma de nossas mil aventuras nessas noites
    de meu Deus ! Tomara … vou adorar rever vc !
    carinho enorme por ti
    durma com todos os anjos meu querido ! e até amanhã …

  5. maio 12, 2014 às 9:24 am

    Vitor, estou bestificada, você é um monstro de vivência em prosa ! Não consegui parar de ler suas crônicas e
    olha que prosa não é meu fraco. Ri muito e ao mesmo tempo senti na carne a força da verdade de suas experiências de vida. Você é realmente sublime amigo. Se te admirava antes, agora você atingiu a plenitude
    tão desejada por nós poetas. Em prosa você cresce e nos engrandece ler seus ditos. Um analista diria bem
    mais que todos nós que conhecemos sua obra. Você já publicou essas crônicas ? Caso já o tenha feito,
    peço que me indique onde poderei adquiri-la ok ? Bjs. e mais parabens por tantas verdades vivenciadas !
    Messody Benoliel (Presidente da Academia Brasileira de Trova e
    Fundadora da Sociedade Literária do Soneto (SOLIS) no Rio de Janeiro/
    Rio, 12 de maio de 2014

    • 7 victorcolonna
      maio 12, 2014 às 12:11 pm

      Messody,
      Puxa, nem sei o que dizer. É uma honra ser elogiado assim por você, querida! O que mais eu poderia querer na vida além de atingir o coração dos meus amigos? Para mim, arte é isso: uma flecha disparada em direção ao outro. Uma flecha que sobrevoa as diferenças, que iguala, que irmana as pessoas. Escrever é minha religião, amiga. Ainda não tenho um livro de crônicas. Na verdade, estou escrevendo um que terá crônicas e poemas, pois tenho percebido que, de uma forma estranha na minha vida, um se encaminha para o outro. Em breve, publicarei. Grande beijo!


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