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abr
09

A herança

A mãe do meu pai nasceu em Moscou.

Aos 15 anos, por conta da Revolução Russa, fugiu com a irmã e a mãe para a Suíça, deixando para trás o irmão de 18, que foi obrigado a servir ao exército. A família nunca mais teve notícias dele.

Aos 17, conheceu meu avô, quase 20 anos mais velho, apaixonou-se perdidamente e casou.

Anos depois,  pegaram um navio para tentar vida nova em Buenos Aires, mas seguindo o conselho de um passageiro que dizia que o Brasil era uma terra de oportunidades (era 1930), resolveram aportar no Rio de Janeiro.

Meu avô era pintor e ilustrador. Era extremamente técnico e ensinou pintura à minha avó. Mas nunca explodiu em cores como ela,  seus  quadros eram sombrios e os dela (em geral santas russas), exuberantes, se bem que não tão técnicos.

Ele morreu antes de eu nascer. Ela, em 1987, aos 85 anos.

Tinha os olhos azuis mais lindos que vi na vida e os manteve brilhantes até o fim.

Deixou-me  alguns quadros e uma certa tristeza russa. Os olhos, infelizmente,  não me couberam de herança.

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3 Responses to “A herança”


  1. 1 Rose
    abril 13, 2009 às 4:27 am

    Adorei a sua poesia publicada no blob do Noblat.
    E o seu livro como e o nome? E poesia?

  2. abril 13, 2009 às 6:08 am

    É, infelizmente minha avó também não me deixou os olhos como herança. Em compensação, guardo boas lembranças dos alomoços em família, da comida que ela preparava e das lendárias empadinhas de queijo que nunca mais comi igual.
    Beijos da amiga.

  3. 3 Julia
    abril 13, 2009 às 9:09 pm

    Vi um de seus poemas no blog do Noblat e gostei demais. Também gostei muito dos outros, que serão publicados no seu novo livro e que você apresenta aqui, no seu blog. É sempre uma agradável surpresa conhecer novos poetas e perceber que ainda há muitos “heróis da resistência” nesse nosso mundo de eternas crises e crescente insensibilidade.
    O seu texto é muito bom. A propósito, minha avó também tinha límpidos olhos azuis. Não era russa como a sua, mas espanhola. Teve 9 filhos e 23 netos e sempre nos encantou com a sua coragem e esperança.
    Parabéns pela poesia, pelo texto e pelo blog.


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