11
fev
12

Crônica de pé quebrado

Madrugada de sábado, pé esquerdo torcido, solitário em casa. Volto ao passado.

Eu e minha mãe crianças, no fim do Leme, vendo a lua cheia se erguer soberana atrás das montanhas, holofote nos céus.

Eu e meu pai adolescentes, andando pela estrada de terra em torno do lago em Barão de Javary, a brisa soprando as flores no rumo de casa.

Minha mãe encantada, falando do maravilhoso filme polonês que havia visto no extinto cinema 1, em Copacabana.

Meu pai vendo corrida de F1 e me apresentando a um queijo amargo e verde, que demorei exatas duas mordidas para me apaixonar.

Ambos, pai e mãe, estranhamente mortos há tantos anos já.

E ainda mais estranhamente vivos, nesta madrugada mais retorcida que meu pé.

16
dez
11

Impressoes de uma viagem

Faz dois dias. Mas parece em outra vida. E foi.

Dez dias na África. Do Sul.

Primeiro Cidade do Cabo. Focas, pinguins, o  teleférico esférico de Table  Mountain. Azulões e preás, a vida nas alturas.

Joanesburgo. Animais selvagens. Presos. Entro na jaula do leao como se nunca durante toda a vida.

Depois, Kruger Park, Roça sem tv ou internet. Safári, dormir äs 9h, acordar äs 5h, tempo sincronizado, fome ancestral.

Mas foi numa parada que vi. Meninas negras dançando.Llindas. Turistas aplaudem, depois gritam. Por fim, descem do ônibus (ou  do pesdestal?) e todos juntos. Comunhão. Sem cor, classe, língua.

Só a dança coletiva e tribal. Essência humana.

22
nov
11

A Borboleta

Deve ter sido por causa da noita chuvosa, abafada.  De repente, ao passar por Copacabana, caíram as lembranças.

Na minha infância, as noites eram mais longas. As luas eram mais cheias. A vida, uma certeza.

Saía com  minha mãe pelas ruas de Copacabana. Andávamos pela praia, sentindo o cheiro doce do mar morrendo na areia.

Íamos a uma lojinha situada nos fundos de uma galeria, onde uma velha francesa vendia bonecas de porcelana que minha mãe admirava e jamais comprou.

Havia uma doceria a três passos do nosso edifício, onde comprávamos um doce cujo nome só descobri anos mais tarde – palmier. Eu, sete anos, pedia para a atendente: – moça, me dá uma borboleta?

E minha mãe ria, deliciada. Deliciosa.

***                  ***                  ***                   ***

Hoje eu sei que as borboletas não retornam jamais!

06
set
11

DIA ÚTIL

Foi por volta de duas da tarde, entre a visita ao advogado e uma consulta médica. Depois de pagar as contas. Antes de passar no mercado.

Em meio às inutilidades dos dias úteis, lá estava ele. Na porta de um banco. Em Copacabana. Fazendo rosas com folhas de palmeiras arranjadas sabe-se lá onde. Rosas estranhas. Rosas verdes. Rosas lindas.

Os espinhos flechas perfurando os corações endurecidos pelas segundas-feiras da vida.

                                                                          ***

Foi numa segunda-feira. Em Copacabana. Sabe-se lá quando. Sabe-se lá onde.

31
jul
11

A fuga

Dez dias atrás resolvi  fugir ás minhas responsabilidades. Comprei uma passagem de avião e vim para Fortaleza passar duas semanas fazendo o que sei melhor: nada!

Se eu pudesse definir Fortaleza numa palavra  ela seria brisa. Brisa fresca, brisa morna. Pois o inverno aqui não é em julho. Ou não existe. Enquanto o Rio de Janeioro sofre com temperaturas de até 15 graus aqui , todo dia, faz 28, de manhã à noite.

Agora, perto da hora da partida, carrego no peito essa brisa eterna somada ao céu de abismo, às areias desérticas e à solidão constante.

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 Em breve, com certeza, volto a fugir das minhas responsabilidades.

29
jun
11

noite de inverno

Um dia, acordei e percebi: sou jovem demais para ser velho e velho demais para ser jovem

Que não me venham os psicólogos de botequim com suas frases de livro de auto-ajuda.

Há um momento em que as dores (e as delícias da vida, também) se cobram.

Em noites frias como as de hoje, o preço é alto demais.

02
abr
11

E por falar em sexo…

É fato: a imensa maioria dos xingamentos se refere a sexo: cadela, piranha, galinha, viado, corno, filho da puta.

Numa sociedade repressora e mal-resolvida, a participante de um reality show, com um passado supostamente “duvidoso”, vira alvo de  incandescentes discussões sobre a “decadência da  sociedade”. Um deputado pseudo-moralista (perdão pela redundância, todos os moralistas são falsos de antemão)  acusa a apresentadora que o entrevistava de não ter “ética” para questioná-lo, visto  a própria ter revelado publicamente que já fizera sexo grupal. Grupos religiosos falam em “ofensa às leis de Deus” quando se discute a união civil dos homossexuais.

E assim seguimos…

Sonho chegar o dia em que não mais se confunda sexualidade com imoralidade, heterossexualidade com hombridade, repressão sexual com educação. O dia em que o sexo fique por baixo, o amor por cima e ambos caminhem lado a lado, de mão dadas.

Neste dia, com certeza, o ser humano estará no topo.

14
mar
11

A força das palavras

Sempre ouvimos falar: as palavras têm força. Que os digam os líderes religiosos e os autores de livros de auto-ajuda.

Em tempos politicamente corretos trocamos palavras carregadas de preconceito por outras: aleijado passou a ser “cadeirante”; favela, agora, chama-se comunidade; retardado, especial.

Em verdade, mudam-se as palavras, mas não o preconceito. As “comunidades” permanecem indignas, desumanas; os “especiais”, discriminados e os “cadeirantes” alijados do convívio social.

Basta conferir: quantas “comunidades” apresentam condições básicas de sobrevivência? Quantas escolas incluem os “especiais” em seus quadros? Quantos ônibus dão acesso a “cadeirantes”? Aliás, quantas vezes você viu um “cadeirante” subir num ônibus? E, mesmo que subisse, como poderia ele andar por ruas sem rampa.

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As palavras têm força, sim. E muita. Tanta que, muitas vezes, as usamos para não fazer as mudanças necessárias.

26
fev
11

O direito de chorar

Os míopes, como eu, sabem: a chegada dos 40 é especialmente dolorosa, pois, à vida cansativa soma-se a vista cansada.

Em minha última ida ao oftalmologista veio a revelação: sofro de ressecamento ocular.

Tenho olhos áridos, retinas desérticas. Logo eu, que choro feito criança em filmes românticos de finais felizes. Logo eu, cuja vida ridícula se assemelha a um dramalhão mexicano, um vale de lágrimas que começa na desgraça e acaba no riso (ou vice-versa). Logo eu,  agora perdi o direito sagrado de chorar.

Mas não doutor, não serei presa do riso fácil, amarelo e sem graça que acomete os quarentões perdidos. Não abrirei mão de minhas lágrimas. Nem que sejam lágrimas secas, evaporadas nas porradas da vida. Disso não abro mão, doutor. Chorar, choramingar, diluir-me , liqüidar-me, liqüidificar-me, secar no sal das lágrimas que queimam minhas retinas fatigadas.

Só assim não cegarei.

31
jan
11

Declaração de amor ao Rio de Janeiro

Sorrio.

Sou Rio de Janeiro.

Rio de todos os santos, de todos os cantos do Brasil inteiro.

Rio de São Paulo, Santa Catarina, São Salvador, São Luís.

Rio cheio de amor pra dar e ser feliz.

Sou Rio grande, de norte a sul, Rio das praias verdes e do céu azul.

Rio do samba, do tabuleiro da baiana, Rio do xote e do xaxado, Rio de braços abertos sob o Corcovado.

Sou Rio Piauí, Rio Amapá, sou Rio de  Goiás,  sou Rio de Pará

Sou Rio das Minas,   Rio Mato Grosso, Rio Amazonas, Rio Ceará.

Sorrio e só quero amar.

Sou Rio Paraíba, Rio Paraná, Rio Pernambuco, Rio Tocantins.

Sou tão louco pelo Brasil, que todo o Brasil faz parte de mim.




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