02
fev
10

EM VIDAS PASSADAS

Há quem acredite em vida depois da morte. Para esses, as ações e pensamentos do mundo “carnal” definem a estadia do indivíduo no mundo posterior: inferno, céu ou purgatório.

Outros creem que os atos das vidas passadas influenciam a atual encarnação. É o tal carma, que cada pessoa há de pagar (à vista ou em suaves prestações).

 Acredito que a vida é tão grande, tão imensa, que vivemos várias dentro de uma só.

Eu mesmo, muitas vidas atrás, passava as férias em Barão de Javary, onde morava minha avó, que me acordava todos os dias com suco de laranja na cama e as janelas abertas por onde se viam flores multicoloridas. Durante as manhãs perambulava por caminhos tortos que não davam em lugar nenhum (ao contrário dos atalhos tortuosos que hoje me levam a lugares onde não quero ir.) Passeava em volta do lago, cruzando a velha ponte de ripas de madeira, despreocupado e sem esperança, pois não havia o que esperar, não havia espera, a vida era um eterno presente. Sem passado. Sem futuro.

Mas isso foi há muitas vidas, quando eu ainda não sabia.

18
jan
10

Um cara estranho

Sou estranho.

Tenho vontade de comemorar o novo ano em março, de pular carnaval em julho. De trabalhar às duas da manhã e festejar a solidão como se comemora uma nova amizade.

 Desejo o azul do céu em agosto e a neblina num dia de verão. Prefiro os caminhos mais longos (se forem silenciosos), e se estou em lugares amplos e vazios me sinto acolhido.

Gosto de pessoas com pequenas qualidades surpreendentes: um sorriso bonito num rosto feio, um olhar carinhoso num rosto seco, quebra de ritmo, amor inesperado.

 Sou constantemente invadido por ternuras entremeadas de apertos. Garganta e peito. E olhos que não enxergam. Mas procuram.

 Eu sou desses que vivem à margem.

09
jan
10

FELIZ ANO NOVO

Há alguns anos o mundo vive  o boom da informática. Desde então, somos constantemente bombardeados: por spams, e-mails indesejados, vírus, cookies, empresas especializadas em construir nosso “perfil”, cartões de crédito que gerenciam nossas compras e nos catalogam em classes, castas, gráficos, números. Recebemos correspondências que só correspondem a interesses de outros e não aos nossos.

De um tempo pra cá sabemos mais da vida pessoal dos artistas que da arte que eles produzem. Fala-se mais sobre as loucuras de Britney e Amy que de suas (delas) música, sobre os affairs de Débora Secco que sobre sua atuação, sobre os filhos adotados de Madonna que sobre suas canções. A intimidade passou a ser o espetáculo. Perdeu-se a linha que separava o público do privado.

E tomem-se reality shows, onde a vida por si só passou a ser pesada, medida, quantificada, manipulada, paga. E como vida não tem preço, estamos sempre mal pagos.

A única lei válida é que temos que aparecer a qualquer custo. Com ou contra nossa vontade seremos, doravante, vigiados por câmeras, seguidos pelo twitter, fotografados em momentos íntimos, gravados quando pensamos estar a sós. Viveremos sob a égide do Grande Irmão, o Big Brother, num eterno 1984, repetitivo e cada vez mais esfomeado.

Para quem ainda tem alguma esperança, feliz 1984. E que as câmeras estejam convosco.

21
dez
09

Domingo de chuva

Era pra ser um desses domingos de festa, os amigos se reunindo para colocar o papo em dia, bebidas e descontração em volta da piscina.

Mas choveu.

Alguém convencionou chamar os dias de sol de bonitos e os de chuva, feios. Mas muito me agradam os domingos chuvosos como os de hoje.
Gosto das sombras, da penumbra, do barulho amortecido do trânsito e das vozes, do arrepio que me faz procurar cobertas, dessa sensação indefinível que me empurra para o passado.  Saudade mansa.

Não adianta me acenarem com a alegria do sol.

 Sempre serei mais cinza que azul.

10
dez
09

Andando nas nuvens

 Em meados de 2002 eu trabalhava na central dos correios da Ilha do Governador. Saía de casa todos os dias às 5:30h da madrugada para bater o ponto às 7h.

Naquela manhã de inverno, o dia demorava a acordar e eu também. Peguei o 324 (Castelo-Bananal) na Central do Brasil e segui viagem cambaleando de sono. Quando o ônibus chegou à Ilha eu sabia que tinha que ficar atento pra não passar do ponto. Mas, hipnotizado pelo seu balanço, entrei num estado entre o sono e a vigília e quando dei por mim estava num local estranho. Meio no susto, sem saber direito o que fazia, toquei o sinal e saltei. Era um local deserto, desconhecido. Sem casas, sem comércio, sem ninguém. Só então percebi uma neblina baixa, colada ao chão, que mal chegava às minhas canelas. Eu estava perdido. Longe do mundo. Perto de mim. E, pela primeira vez na vida, eu andei nas nuvens.

25
nov
09

A mulher é o pecado

Na Idade Média (também conhecida como Idade das Trevas) era costume: as mulheres que saíam da fôrma, dos “conformes”,  eram taxadas de bruxas ou demônios sedutores e enviadas para a fogueira. Os homens podiam pecar. As mulheres eram o pecado.

Semanas atrás, uma estudante do interior de São Paulo teve que sair da faculdade onde estudava escoltada pela polícia, sob pena de ser linchada. O motivo? Estava usando minissaia. A punição imposta pela diretoria da universidade?  Expulsar a aluna.

Quinhentos anos de evolução não pareceram fazer diferença neste caso. A mulher continua a ser o demônio sedutor que precisa ser destruído para que se garanta a moral e os bons costumes.

Pior que saber que os linchadores eramos colegas de classe  da estudante, foi a  atitude da diretoria que,  com a expulsão, avalizou a barbárie.

A palavra universidade deveria nos remeter a universo, à diversidade cultural,  à expansão do conhecimento e formação de caráter. Deveria. Mas, com estudantes (de)formando-se em instituições desse nível, continuaremos, na média, a ser os mesmos animais que éramos há quinhentos anos.

17
nov
09

Ventania

Foi assim: a tempestade de vento começou por volta de 5 da tarde. Todo mundo viu! Na verdade, ninguém viu, pois o vento (assim como o amor) não é visto, o que se vê  são seus efeitos.

Os cabelos desgrenhados das palmeiras, papéis  viajando rumo ao infinito, um (sus)urro constante, abafado, pressentimento claro  na tarde escura. Algo maior prestes a acontecer.

Dessa vez não aconteceu.  Transformou-se em  sonho, promessa, brisa. Mas sei que, um dia, haverá de voltar mais forte e me levar ao meu destino.

10
nov
09

O papel e a pena

Na novela Roque Santeiro, o personagem Zé das Medalhas, magistralmente vivido pelo saudoso Armando Bógus, era tão obcecado pelas  medalhas de santinhos que vendia (e que acabariam por lhe render a alcunha), que morreu sufocado por milhares delas , no último capítulo da novela.

Eu vivo sufocado por papéis.  Recibos de pagamentos de contas, garantias de produtos e serviços, declarações e documentos antigos, entopem pastas e armários. E na hora de limpar é um drama. O que jogar fora sem colocar em risco a “segurança” que nos dá um simples pedaço de papel?

Porque papel é assinatura, é comprovação. E num mundo onde o que se diz não se escreve, é necessária essa quantidade absurda de papéis. Pois a palavra dada, a tal “palavra de honra” tem cada vez menos valor. Numa disputa jurídica, a sua palavra contra a minha (ou vice-versa) vale pouco ou nada. Valem os documentos,as  assinaturas, os contratos. Mas a palavra em si, não.

Perdemos todos, constantemente receosos de sermos passados para trás, sem perceber que essa falta de confiança na palavra alheia (e tantas vezes nas nossas palavras) é, talvez, a maior das penas.

04
nov
09

POST DOIDO

 O maior medo do hemofílico é sangrar até a morte?

O calor do teu corpo é capaz de secar minhas lágrimas?

As neves eternas vão durar por toda a eternidade?

O passado é para sempre?

Um calafrio não é um paradoxo em si mesmo?

Se tenho febre, deliro. Porque não deveria ter febre, então?

A cada pergunta correspondem quantas respostas? 

E o meu silêncio, quantos compêndios poderia encher?

25
out
09

Lembranças

Dia frio, casa vazia, uma solidão besta se apossa de mim.

 Lembranças antigas, desconexas:

A poeira dançando sob os raios do sol da tarde, no apartamento onde eu morava quando criança.

A neblina da noite em volta do lago de Barão de Javary. Às vezes faltava luz na cidade e o peitos se enchiam, solenes, os olhos percebendo o que não se vê.

 Pequenos copos com água e detergente que eram vendidos nas praias e praças para se fazer bolhas de sabão, etéreas e eternas.

As bandeirinhas da festa de São João na Urca, de papel vegetal, mil cores estacionadas no ar, a procissão de barcos, o povo em festa.

 Eu,  aos 15 anos,  bebendo cerveja com meu pai, me sentindo adulto e feliz, como se fosse lógico.

 Saudades da poeira, da neblina, dos barcos e bandeiras, do meu pai e da felicidade. Culpa dessa  solidão sólida que me acompanha desde sempre e piora nos dias de frio.