10
Nov
09

O papel e a pena

Na novela Roque Santeiro, o personagem Zé das Medalhas, magistralmente vivido pelo saudoso Armando Bógus, era tão obcecado pelas  medalhas de santinhos que vendia (e que acabariam por lhe render a alcunha), que morreu sufocado por milhares delas , no último capítulo da novela.

Eu vivo sufocado por papéis.  Recibos de pagamentos de contas, garantias de produtos e serviços, declarações e documentos antigos, entopem pastas e armários. E na hora de limpar é um drama. O que jogar fora sem colocar em risco a “segurança” que nos dá um simples pedaço de papel?

Porque papel é assinatura, é comprovação. E num mundo onde o que se diz não se escreve, é necessária essa quantidade absurda de papéis. Pois a palavra dada, a tal “palavra de honra” tem cada vez menos valor. Numa disputa jurídica, a sua palavra contra a minha (ou vice-versa) vale pouco ou nada. Valem os documentos,as  assinaturas, os contratos. Mas a palavra em si, não.

Perdemos todos, constantemente receosos de sermos passados para trás, sem perceber que essa falta de confiança na palavra alheia (e tantas vezes nas nossas palavras) é, talvez, a maior das penas.

04
Nov
09

POST DOIDO

 O maior medo do hemofílico é sangrar até a morte?

O calor do teu corpo é capaz de secar minhas lágrimas?

As neves eternas vão durar por toda a eternidade?

O passado é para sempre?

Um calafrio não é um paradoxo em si mesmo?

Se tenho febre, deliro. Porque não deveria ter febre, então?

A cada pergunta correspondem quantas respostas? 

E o meu silêncio, quantos compêndios poderia encher?

25
Out
09

Lembranças

Dia frio, casa vazia, uma solidão besta se apossa de mim.

 Lembranças antigas, desconexas:

A poeira dançando sob os raios do sol da tarde, no apartamento onde eu morava quando criança.

A neblina da noite em volta do lago de Barão de Javary. Às vezes faltava luz na cidade e o peitos se enchiam, solenes, os olhos percebendo o que não se vê.

 Pequenos copos com água e detergente que eram vendidos nas praias e praças para se fazer bolhas de sabão, etéreas e eternas.

As bandeirinhas da festa de São João na Urca, de papel vegetal, mil cores estacionadas no ar, a procissão de barcos, o povo em festa.

 Eu,  aos 15 anos,  bebendo cerveja com meu pai, me sentindo adulto e feliz, como se fosse lógico.

 Saudades da poeira, da neblina, dos barcos e bandeiras, do meu pai e da felicidade. Culpa dessa  solidão sólida que me acompanha desde sempre e piora nos dias de frio.

20
Out
09

ARMAS: UM BOM NEGÓCIO

Semana passada, mais um caso de violência familiar chocou o país. O advogado Paulo Fleury, irmão do ex-governador de São Paulo, matou o filho com um tiro no tórax e depois se suicidou com uma bala na cabeça. Ainda se discute se o tiro que matou o filho foi acidental ou não. Muito se lamenta. Muito se especula. Mas até agora não se escreveu sobre a personagem principal nesta estória toda: a arma do crime.

Pressupõe-se que, como advogado renomado que era, Fleury, se fosse aconselhar um cliente seu que, por (des)ventura, estivesse tendo problemas com o filho, jamais diria para que este usasse uma arma para resolver seu problema.

 Acontece que, antes de advogado, Fleury era humano. E nós, humanos, somos suscetíveis: à raiva, ao ódio, aos rompantes. Isso somado a uma arma na mão é uma bomba-relógio.

Os fabricantes de armas querem nos fazer acreditar que elas nos protegem. Não é verdade. Todos os anos milhares de vidas são perdidas em virtude de discussões banais, fechadas no trânsito, ciúmes desproporcionais. As armas tornam nossas vidas muito mais inseguras. Não é isso que a propaganda feita pelo lobby dos fabricantes mostra. Afinal, eles sabem que a propaganda é a arma do negócio.

 A solução? Educação de qualidade para todos, maior controle (ou proibição) da venda de armas, mudança na legislação, aumentando as penas para quem portar ou vender armas ilegalmente e para quem mata fazendo uso delas. E, sobretudo, a consciência de que as armas são um bom negócio apenas para os bandidos (e os) fabricantes de armas.

09
Out
09

Reflexões de uma viagem – Santorini

Em Santorini eu vi: um vulcão vivo, rochedos que acariciavam  as águas, o pôr do sol, o nascer da lua, silêncios murmurantes, o passado preso nas pedras e o presente petrificado.

Em Santorini eu intuí: o futuro será como sempre foi.

Em Santorini eu percebi: som não é barulho, em terra firme a gente balança, vacila, viveremos entre a cruz e a espada, entre a pedra e o mar,  viraremos estátuas de sal, cremaremos nas tardes azuis e  renasceremos das cinzas.

Foi em Santorini que eu soube : a beleza vive à beira do abismo!

   

                        Eu, Victor Colonna, tenho a honra de convidá-lo(a) para o:

 

Lançamento do livro de poesia Cabeça, Tronco e Versos (Editora da Palavra), na Livraria Baratos da Ribeiro, rua Barata Ribeiro 354 lj D, Copacabana,dia 13 de outubro de 2009, a partir das 19:30h

05
Out
09

Sangue, terra e arte

Lançar um livro é se lançar às críticas, ao abismo que é o gosto do outro.

 Publicar, mais que escrever, é inscrever as palavras, imprimir-se, revelar-se para o mundo.

Há milhares de anos, quando não éramos ainda seres “humanos”, resolvemos misturar o sangue dos animais com terra, transformamos esse sangue em tinta e passamos a desenhar as paredes das cavernas. Não se sabe  porque isso se deu, mas com certeza, já existia nos nossos antepassados cavernosos a necessidade de transcender à vida, de mostrar ao mundo: “eu estive aqui”.

Ninguém sabe exatamente o que é arte. A mim, arte remete à caverna, sangue, angústia, destino, transcendência. É apenas uma intuição, uma conjectura. Não tenho certeza. Nunca terei.

Mas isso não tem a menor importância. Pois a vida não é feita de certezas, mas de caminhadas.

           
                                Eu, Victor Colonna, tenho a honra de convidá-lo(a) para o:
Lançamento do meu livro de poesia “Cabeça, Tronco e Versos”, na Livraria Baratos da  Ribeiro,
        rua Barata Ribeiro 354 lj D, Copacabana, dia 13 de outubro de 2009, a partir das 19:30h

02
Out
09

REFLEXÕES DE UMA VIAGEM – VENEZA

Veneza é absurda, ofensivamente bela. Lugar onde a gente se perde em becos e praças, igrejas e pontes. Uma cidade de perdição! Os becos estreitam, o coração se aperta e a alma se expande. Veneza dói de tao linda.  Cidade de máscaras, onde o perigo não é se ver refeletido no lago (como Narciso), mas  paralisar-se para sempre por sua beleza, serpente encantada, fruto proibido, paraíso, céu na Terra.

Se os deuses existem (e eles existem, lógico!), juntaram-se todos a um só tempo e deixaram prova concreta de seus poderes ali. E nada do que se diga a respeito  poderá expressar o que se sente quando se pisa em Veneza.  Pois, como todos sabem, as palavras são e  sempre serão menores que os sentimentos.

23
Set
09

DIFICULDADES DA VIDA MODERNA

Muito se fala das facilidades de grandes cidades: shoppings centers onde se vende de tudo (pressupostamente até a felicidade), tecnologia que permite  que nos conectemos com o mundo inteiro(eu quero ter um milhao de amigos, já dizia Roberto Carlos), acesso à informação instantânea (como uma bola de cristal que nos permitisse antever o futuro).

Mas quando se sai da cidade grande é que se vê que a estória nao é bem assim. Estou em Mykonos ha 3 dias, sem celular (se bem que o meu,em geral, nao pega nem no meu apartamento) e sem acesso à Internet, desconectado, desinformado, fora do tempo e do espaço.

Minha alegria hoje é poder olhar as praias azuis, ouvir o som do mar, olhar o céu dourado, serpentear por ruas estreitas e longas, sem trânsito, sem arranha-céus, onde cada som é sentido e faz sentido, pois é som, não barulho. E nao me cansa ter que subir escadas, esperar meia hora pelo ônibus que vai me levar à cidade para que eu faça NADA, sem culpa, sem olhares feios e recriminações veladas. Apenas ouvindo os segredos da natureza .

06
Set
09

carta a uma amiga

Sandra,

Vc me fez chorar com seu comentário. Nunca esqueça que você foi a primeira amiga a me acompanhar aos saraus de poesia e a acreditar em mim. Eu me sinto honradíssimo e sem palavras para expressar o que meu coração sente. É o máximo a que um artista pode almejar, tocar o outro profundamente. Estou tão feliz que dói. Você sabe que nunca foi fácil pra mim escrever. Hoje é muito pior, pois conheço a minha responsabilidade nessa história. Para mexer com o outro é necessário mexer comigo antes, e você sabe que eu sou um terremoto ambulante. Eu, que sempre tive medo do voo, agora que me joguei no abismo, sinto a vertigem fantástica da queda (que não deixa também de ser uma espécie de voo). Cair é voar também. Pelo menos até venha o baque do chão. Te amo!

Um beijo chorado do amigo,

Victor

31
Ago
09

saudade

Saudade é uma coisa incrível. Pessoas normais têm saudade de bons momentos do passado.

Eu tenho saudades estranhas. Há musicas que me remetem a belos momentos que eu não vivi, festinhas adolescentes às quais não fui, natais em família que nunca ocorreram. Tenho saudade do futuro também. Das coisas boas que eu sei (com a minha certeza insegura) que vão acontecer. Saudades do presente, do que acontece agora, um agora volátil,  tão etéreo, que me faz sentir como se minha existência fosse surreal, como se a surrealidade fosse a realidade.

Entretanto, prefiro ter saudade. Não há como abrir mão das lembranças, das perdas, dos fracassos, das alegrias e estranhezas da vida.

 Conheço quem não se entrega ao amor, aos sonhos, aos delírios. Esses não sofrem, não têm saudade,  coitados. São como um navio no porto. Estão seguros. Mas não é para isso que os navios são construídos.