21
Dez
09

Domingo de chuva

Era pra ser um desses domingos de festa, os amigos se reunindo para colocar o papo em dia, bebidas e descontração em volta da piscina.

Mas choveu.

Alguém convencionou chamar os dias de sol de bonitos e os de chuva, feios. Mas muito me agradam os domingos chuvosos como os de hoje.
Gosto das sombras, da penumbra, do barulho amortecido do trânsito e das vozes, do arrepio que me faz procurar cobertas, dessa sensação indefinível que me empurra para o passado.  Saudade mansa.

Não adianta me acenarem com a alegria do sol.

 Sempre serei mais cinza que azul.

10
Dez
09

Andando nas nuvens

 Em meados de 2002 eu trabalhava na central dos correios da Ilha do Governador. Saía de casa todos os dias às 5:30h da madrugada para bater o ponto às 7h.

Naquela manhã de inverno, o dia demorava a acordar e eu também. Peguei o 324 (Castelo-Bananal) na Central do Brasil e segui viagem cambaleando de sono. Quando o ônibus chegou à Ilha eu sabia que tinha que ficar atento pra não passar do ponto. Mas, hipnotizado pelo seu balanço, entrei num estado entre o sono e a vigília e quando dei por mim estava num local estranho. Meio no susto, sem saber direito o que fazia, toquei o sinal e saltei. Era um local deserto, desconhecido. Sem casas, sem comércio, sem ninguém. Só então percebi uma neblina baixa, colada ao chão, que mal chegava às minhas canelas. Eu estava perdido. Longe do mundo. Perto de mim. E, pela primeira vez na vida, eu andei nas nuvens.

25
Nov
09

A mulher é o pecado

Na Idade Média (também conhecida como Idade das Trevas) era costume: as mulheres que saíam da fôrma, dos “conformes”,  eram taxadas de bruxas ou demônios sedutores e enviadas para a fogueira. Os homens podiam pecar. As mulheres eram o pecado.

Semanas atrás, uma estudante do interior de São Paulo teve que sair da faculdade onde estudava escoltada pela polícia, sob pena de ser linchada. O motivo? Estava usando minissaia. A punição imposta pela diretoria da universidade?  Expulsar a aluna.

Quinhentos anos de evolução não pareceram fazer diferença neste caso. A mulher continua a ser o demônio sedutor que precisa ser destruído para que se garanta a moral e os bons costumes.

Pior que saber que os linchadores eramos colegas de classe  da estudante, foi a  atitude da diretoria que,  com a expulsão, avalizou a barbárie.

A palavra universidade deveria nos remeter a universo, à diversidade cultural,  à expansão do conhecimento e formação de caráter. Deveria. Mas, com estudantes (de)formando-se em instituições desse nível, continuaremos, na média, a ser os mesmos animais que éramos há quinhentos anos.

17
Nov
09

Ventania

Foi assim: a tempestade de vento começou por volta de 5 da tarde. Todo mundo viu! Na verdade, ninguém viu, pois o vento (assim como o amor) não é visto, o que se vê  são seus efeitos.

Os cabelos desgrenhados das palmeiras, papéis  viajando rumo ao infinito, um (sus)urro constante, abafado, pressentimento claro  na tarde escura. Algo maior prestes a acontecer.

Dessa vez não aconteceu.  Transformou-se em  sonho, promessa, brisa. Mas sei que, um dia, haverá de voltar mais forte e me levar ao meu destino.

10
Nov
09

O papel e a pena

Na novela Roque Santeiro, o personagem Zé das Medalhas, magistralmente vivido pelo saudoso Armando Bógus, era tão obcecado pelas  medalhas de santinhos que vendia (e que acabariam por lhe render a alcunha), que morreu sufocado por milhares delas , no último capítulo da novela.

Eu vivo sufocado por papéis.  Recibos de pagamentos de contas, garantias de produtos e serviços, declarações e documentos antigos, entopem pastas e armários. E na hora de limpar é um drama. O que jogar fora sem colocar em risco a “segurança” que nos dá um simples pedaço de papel?

Porque papel é assinatura, é comprovação. E num mundo onde o que se diz não se escreve, é necessária essa quantidade absurda de papéis. Pois a palavra dada, a tal “palavra de honra” tem cada vez menos valor. Numa disputa jurídica, a sua palavra contra a minha (ou vice-versa) vale pouco ou nada. Valem os documentos,as  assinaturas, os contratos. Mas a palavra em si, não.

Perdemos todos, constantemente receosos de sermos passados para trás, sem perceber que essa falta de confiança na palavra alheia (e tantas vezes nas nossas palavras) é, talvez, a maior das penas.

04
Nov
09

POST DOIDO

 O maior medo do hemofílico é sangrar até a morte?

O calor do teu corpo é capaz de secar minhas lágrimas?

As neves eternas vão durar por toda a eternidade?

O passado é para sempre?

Um calafrio não é um paradoxo em si mesmo?

Se tenho febre, deliro. Porque não deveria ter febre, então?

A cada pergunta correspondem quantas respostas? 

E o meu silêncio, quantos compêndios poderia encher?

25
Out
09

Lembranças

Dia frio, casa vazia, uma solidão besta se apossa de mim.

 Lembranças antigas, desconexas:

A poeira dançando sob os raios do sol da tarde, no apartamento onde eu morava quando criança.

A neblina da noite em volta do lago de Barão de Javary. Às vezes faltava luz na cidade e o peitos se enchiam, solenes, os olhos percebendo o que não se vê.

 Pequenos copos com água e detergente que eram vendidos nas praias e praças para se fazer bolhas de sabão, etéreas e eternas.

As bandeirinhas da festa de São João na Urca, de papel vegetal, mil cores estacionadas no ar, a procissão de barcos, o povo em festa.

 Eu,  aos 15 anos,  bebendo cerveja com meu pai, me sentindo adulto e feliz, como se fosse lógico.

 Saudades da poeira, da neblina, dos barcos e bandeiras, do meu pai e da felicidade. Culpa dessa  solidão sólida que me acompanha desde sempre e piora nos dias de frio.

20
Out
09

ARMAS: UM BOM NEGÓCIO

Semana passada, mais um caso de violência familiar chocou o país. O advogado Paulo Fleury, irmão do ex-governador de São Paulo, matou o filho com um tiro no tórax e depois se suicidou com uma bala na cabeça. Ainda se discute se o tiro que matou o filho foi acidental ou não. Muito se lamenta. Muito se especula. Mas até agora não se escreveu sobre a personagem principal nesta estória toda: a arma do crime.

Pressupõe-se que, como advogado renomado que era, Fleury, se fosse aconselhar um cliente seu que, por (des)ventura, estivesse tendo problemas com o filho, jamais diria para que este usasse uma arma para resolver seu problema.

 Acontece que, antes de advogado, Fleury era humano. E nós, humanos, somos suscetíveis: à raiva, ao ódio, aos rompantes. Isso somado a uma arma na mão é uma bomba-relógio.

Os fabricantes de armas querem nos fazer acreditar que elas nos protegem. Não é verdade. Todos os anos milhares de vidas são perdidas em virtude de discussões banais, fechadas no trânsito, ciúmes desproporcionais. As armas tornam nossas vidas muito mais inseguras. Não é isso que a propaganda feita pelo lobby dos fabricantes mostra. Afinal, eles sabem que a propaganda é a arma do negócio.

 A solução? Educação de qualidade para todos, maior controle (ou proibição) da venda de armas, mudança na legislação, aumentando as penas para quem portar ou vender armas ilegalmente e para quem mata fazendo uso delas. E, sobretudo, a consciência de que as armas são um bom negócio apenas para os bandidos (e os) fabricantes de armas.

09
Out
09

Reflexões de uma viagem – Santorini

Em Santorini eu vi: um vulcão vivo, rochedos que acariciavam  as águas, o pôr do sol, o nascer da lua, silêncios murmurantes, o passado preso nas pedras e o presente petrificado.

Em Santorini eu intuí: o futuro será como sempre foi.

Em Santorini eu percebi: som não é barulho, em terra firme a gente balança, vacila, viveremos entre a cruz e a espada, entre a pedra e o mar,  viraremos estátuas de sal, cremaremos nas tardes azuis e  renasceremos das cinzas.

Foi em Santorini que eu soube : a beleza vive à beira do abismo!

   

                        Eu, Victor Colonna, tenho a honra de convidá-lo(a) para o:

 

Lançamento do livro de poesia Cabeça, Tronco e Versos (Editora da Palavra), na Livraria Baratos da Ribeiro, rua Barata Ribeiro 354 lj D, Copacabana,dia 13 de outubro de 2009, a partir das 19:30h

05
Out
09

Sangue, terra e arte

Lançar um livro é se lançar às críticas, ao abismo que é o gosto do outro.

 Publicar, mais que escrever, é inscrever as palavras, imprimir-se, revelar-se para o mundo.

Há milhares de anos, quando não éramos ainda seres “humanos”, resolvemos misturar o sangue dos animais com terra, transformamos esse sangue em tinta e passamos a desenhar as paredes das cavernas. Não se sabe  porque isso se deu, mas com certeza, já existia nos nossos antepassados cavernosos a necessidade de transcender à vida, de mostrar ao mundo: “eu estive aqui”.

Ninguém sabe exatamente o que é arte. A mim, arte remete à caverna, sangue, angústia, destino, transcendência. É apenas uma intuição, uma conjectura. Não tenho certeza. Nunca terei.

Mas isso não tem a menor importância. Pois a vida não é feita de certezas, mas de caminhadas.

           
                                Eu, Victor Colonna, tenho a honra de convidá-lo(a) para o:
Lançamento do meu livro de poesia “Cabeça, Tronco e Versos”, na Livraria Baratos da  Ribeiro,
        rua Barata Ribeiro 354 lj D, Copacabana, dia 13 de outubro de 2009, a partir das 19:30h